Protagonistas das próprias histórias Cineastas negras, colocam a nossa marca nas telas do cinema

A autoestima de uma população está intrinsecamente relacionada às referências que recebe ao longo da vida. No mundo moderno as telas sejam da TV ou do cinema têm grande influência sobre a identidade de um povo. Nós, mulheres negras, que representamos pelo menos 30% dos brasileiros, não aparecemos neste cenário. E quando estamos lá, geralmente somos subjugadas e/ou sensualizadas. Papéis como jornalistas, advogadas, arquitetas, engenheiras, sociólogas, professoras ou cineastas, raramente são retratados. “Eu defendo o meu lugar enquanto cineasta negra, sempre buscando estratégias de sobrevivência para a produção dos nossos filmes” diz Thamires Vieira,cineasta baiana, formada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e que dedica o seu talento para a produção de narrativas audiovisuais como um instrumento para o fortalecimento da identidade negra. “Adotamos o cineclubismo como uma ferramenta para formação do público para os nossos próprios filmes”, afirma Thamires, que é integrante do Coletivo Tela Preta e sócia da produtora Rebento, formada por outras quatro cineastas negras.

Dados da pesquisa Diversidade de gênero e raça realizada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), não traz novidades. Também no audiovisual, os homens brancos são 75,4% dos diretores e 60% dos produtores. As mulheres negras sequer aparecem em tais cargos. Nos filmes brasileiros de 2016, as mulheres representaram 40% do elenco, já os negros, apenas 13,3%. Em 75,3% dos longas nacionais, os negros são, no máximo, 20% do elenco. Não há um recorte, mas não é tão difícil adivinhar qual a nossa parte neste quinhão.

Por isso, iniciativas como a Tela Preta e outros coletivos formados por uma geração de cineastas negras são imperiosos para quebrar estereótipos historicamente criado sobre nós e para desconstruir uma ideia, perversa, de que não somos bons suficientes. Para Bárbara Cazé, a exibição de filmes que tenham mulheres negras como diretoras, roteiristas ou protagonistas estimulam o expectador a se ver como aquela mulher. “Somos protagonistas na vida, sempre estivemos no centro das cenas, e nas sessões do Cineclube damos visibilidade para esta nossa participação na sociedade”, diz Cazé, que é pedagoga e curadora do projeto Cineclube Afoxé, que exibe, em diferentes espaços públicos ou culturais da região do centro de Vitória, ES, filmes de diretoras ou que tratem das condições de vida das mulheres negras.

A curadora aponta um fato interessante: a maioria dos filmes selecionados para a mostra foram produzidos por cineastas cotistas, oriundos de políticas públicas. Um sinal evidente de que, havendo oportunidades somos capazes de produzir importantes registros para o audiovisual “Depois das exibições promovemos rodas de conversas com especialistas sobre o tema abordado na tela e lideranças femininas (militantes, referência na comunidade, etc.) e os resultados têm sido tão positivos que chegaremos a dez exibições, ultrapassando o limite proposto no projeto enviado pelo Edital de Desenvolvimento e Manutenção do Cineclubismo da Secult que eram sete”, comemora.

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