Criando crianças plenas

Criando crianças plenas

Comunicação antirracista para que nossas crianças sejam o que quiserem ser

O maior propósito do Grana Pretta é mostrar que somos todos merecedores de uma vida com mais qualidade, que temos o direito de ser tudo o que quisermos ser através dos pilares da autoestima e da educação financeira.  Estas são ferramentas importantes para nos blindarmos contra uma sociedade que insistentemente tenta nos convencer do contrário. E isso, geralmente começa nos bancos escolares (possivelmente antes, mas é ali que tenho as primeiras lembranças deste processo injusto e desigual). Suponho que esta seja a realidade de muita(os) negra(os) adultos hoje. E justamente para inverter esta lógica perversa que duas mulheres pretas potentes decidiram investir num projeto que visa a comunicação antirracista.

“Percebemos que nossas crianças estão crescendo em um ambiente onde precisam se defender o tempo todo, onde pais e mães preocupados com a questão nem sempre sabem o que fazer para protegê-los”, diz Paula Batista, jornalista especialista em mídia da informação e cultura pela USP e mestra em divulgação científica e cultural pela Unicamp. Ela e a amiga, a publicitária Débora Bastos criaram o projeto Criando Crianças Pretas com o propósito de introduzir uma comunicação antirracista, principalmente no ambiente escolar. A ideia começou a ganhar corpo quando Débora escolheu o tema “ Príncipe Preto no reino de Wakanda” no aniversário de 1 ano do seu filho José. “Ali a gente entendeu que era importante falar sobre a questão da negritude e do racismo com pais de crianças pretas e brancas. Nós sempre conversamos sobre nossas infâncias como crianças pretas e essa foi a principal motivação para a criação do projeto”.

Criando crianças pretas

O primeiro passo foi criar uma conta no Instagram e em julho de 2019 nasceu o @criandocriancaspretas, que hoje já conta com mais de 23,6 mil seguidores. “ Nosso propósito foi criar uma rede antirracista que envolvesse a escola, os pais e criadores de crianças brancas e pretas, visando a proteção das crianças pretas”, lembra a jornalista.

O conteúdo é para adultos, pais e mães, que querem entender quem foram como crianças e o que querem para os filhos, enteados, sobrinhos e crianças negras de seus convívios. Desta forma, as especialistas começaram a fazer um processo de acolhimento, especialmente para mães brancas com filhos adotivos ou de relacionamentos inter-raciais, que não sabiam lidar com as questões da negritude, “estamos preocupadas com a criança preta, não com a cor dos pais”, aponta Paula.

Das redes para o mundo

A relevância do assunto chamou a atenção de escolas públicas e particulares que passaram a convidar Paula e Débora para palestras e oficinas. “ Entendemos que aquele era um importante nicho de mercado, então decidimos nos dedicar integralmente ao projeto”.

Apesar da obrigatoriedade da aplicação da lei 10.639  para o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas, há um grande desconhecimento (ou seria descaso?) sobre este importante instrumento para a desconstrução do racismo no País. Nas escolas públicas, segundo as meninas, geralmente as crianças, especialmente os adolescentes já foram tão desestruturados que sequer conseguem sonhar. “Se conseguimos mostrar para essas crianças que elas podem ser tudo o que quiserem já nos sentimos recompensadas”.

O site Mandacaru Diversidade https://www.mandacarudiversidade.com.br/, é um outro braço do projeto, desenvolvido para atender empresas. 

Livros disponiveis no site da mandacarudiversidade com personagens negros

Ali estão disponíveis materiais de comunicação para a promoção da igualdade racial. “ Mantemos uma biblioteca de livros infantis com personagens negros em parceria com a Amazon, cada livro comprado pelo nosso link nos rende um percentual que aplicamos nos projetos destinados às escolas públicas”.

A dupla criou um formato de intervenção a partir das próprias vivências. “ Somos da área de comunicação, não somos pedagogas ou psicólogas, por isso, propomos a comunicação antirracista com o objetivo de compartilhar informações e propor ideias para uma infância livre de preconceitos”.

Para as escolas, foram desenvolvidos quatros pilares em formato de palestras para estimular a reflexão sobre o racismo e propor a adoção de uma comunicação não violenta e da pedagogia positiva (aqui contam com uma parceira). “Fazemos provocações e perguntas para que pais, professores e funcionários entendam a importância do tema a passem a se questionar”. Para as crianças, do primeiro ao nono ano do ensino médio, as especialistas desenvolveram um projeto que vise o empoderamento e a visão sobre o negro de forma lúdica.

Depois da intervenção no ambiente escolar, Paula e Débora oferecem uma consultoria, composta por um protocolo de ações para lidar com o racismo e posicionamento para mediação de conflitos em episódios de racismos. “ Também sugerimos mudanças para tornar a escola visualmente diversa”. O projeto já foi apresentado em escolas, instituições e empresas na capital e no interior de São Paulo.

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